Paróquia de S. Cristóvão do Muro

Vigararia Trofa/Vila do Conde
Diocese do Porto - Portugal

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A POLÍTICA DEVE CUIDAR DAS FERIDAS DOS POVOS E OFERECER ESPERANÇA



O Papa Leão XIV,

à luz da Gaudium et spes, reflectiu

sobre a vida económico-social e política

     


A economia e a política devem estar a serviço da dignidade humana, do bem comum e da paz. Foi o que destacou o Santo Padre na catequese desta Quarta-feira, ao reflectir sobre os capítulos III e IV da segunda parte da Constituição pastoral Gaudium et spes, dedicados à vida económico-social e à comunidade política.

Segundo Leão XIV, o desenvolvimento económico deve estar sempre ao serviço do ser humano, princípio que está na base do conceito de desenvolvimento integral, aprofundado por São Paulo VI na encíclica Populorum progressio, de 1967. O Papa também destacou a actualidade do apelo conciliar para eliminar as discriminações que atingem os grupos sociais mais vulneráveis e os migrantes.

Ao abordar a dignidade do trabalho, o Santo Padre ressaltou a sua importância para a realização pessoal, o sustento das famílias e a participação na sociedade. O trabalho, explicou, é também uma forma de colaborar com a obra do Criador:

“O coração da economia é o trabalho. Através dele, o homem desenvolve-se como pessoa, provê às necessidades da família, expressa o seu talento, participa na vida social e edifica um mundo melhor, colaborando para a obra criadora de Deus.”

Na segunda parte da reflexão, o Santo Padre voltou a sua atenção para a responsabilidade da comunidade política na defesa dos direitos humanos e na promoção do bem comum. Recordou que o exercício da autoridade deve considerar não apenas os interesses particulares, mas o bem de toda a família humana. O Papa reafirmou ainda a autonomia e a independência da Igreja e da comunidade política nos seus respectivos âmbitos, destacando, porém, a importância de uma cooperação saudável entre ambas a serviço das pessoas.

Ao concluir, Leão XIV ressaltou que o compromisso com uma economia justa e uma política voltada para o bem comum representa um caminho concreto para a paz. Nesse contexto, citou a encíclica Fratelli tutti, do Papa Francisco, que recorda as consequências da guerra para a humanidade:

“A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal.”


No final da Audiência, na saudação em língua espanhola, o Santo Padre referiu-se à Viagem Apostólica que vai realizar ao Uruguai, Argentina e Peru, com início na próxima Sexta-feira dia 6 de Novembro:

“Na próxima Sexta-feira, partirei para a América do Sul, para visitar o Uruguai, a Argentina e o Peru. Conto com as orações de vocês, para que esta viagem fortaleça a fé, renove a esperança, reacenda a chama da caridade e seja um estímulo para seguir anunciando o Evangelho com alegria.”


LEÃO XIV - AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro, Quarta-feira, 4 de Novembro de 2026


Catequese. Os Documentos do Concílio Vaticano II

IV. Constituição pastoral Gaudium et spes

8. A fé e a vida social, política e económica (GS, 63-76)


Prezados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!

A dimensão social é parte integrante, não só da natureza humana, mas também da nossa fé em Cristo Jesus, como precioso legado que recebemos da encarnação do Filho de Deus. A Constituição Gaudium et spes (GS) recorda-o nos capítulos III e IV da segunda parte, dedicados à vida económico-social e à vida da comunidade política. Também nestes campos, a fé cristã oferece critérios de discernimento.

Os Padres conciliares evidenciam em primeiro lugar o perigo para a paz mundial, que deriva dos desequilíbrios ligados a um desenvolvimento económico não equitativo e não respeitoso da criação (cf. GS, 63). Uma visão clarividente, que infelizmente encontrou confirmação na parte final do século passado e que constatamos ainda mais hoje. Para corrigir a rota — adverte o Documento — não é suficiente o desenvolvimento técnico, «requerem-se muitas reformas na vida económico-social e uma mudança de mentalidade e de hábitos por parte de todos» (ibid.).

Por isso, a Gaudium et spes apresenta em síntese a visão cristã do desenvolvimento económico, que deve estar sempre ao serviço do homem e sob o domínio do homem (cf. GS, 64-65). Já aqui se manifesta claramente o conceito de desenvolvimento integral, que mais tarde São Paulo VI colocará no centro da sua Encíclica Populorum progressio (1967). Além disso, são mais actuais do que nunca os apelos a comprometer-se para eliminar as discriminações em detrimento dos grupos sociais mais vulneráveis e dos migrantes (cf. GS, 66).

O coração da economia é o trabalho. Através dele, o homem desenvolve-se como pessoa, provê às necessidades da família, expressa o seu talento, participa na vida social e edifica um mundo melhor, colaborando para a obra criadora de Deus. O trabalho nunca pode ser deturpado em prejuízo das pessoas, do bem comum ou da criação. O verdadeiro desafio consiste em oferecer a todos oportunidades para frutificar as próprias capacidades: não são aceitáveis o desemprego, a exploração e condições de trabalho que põem em perigo a saúde e a própria vida (cf. GS, 67). Os trabalhadores têm o direito e o dever de participar nas decisões que dizem respeito à sua actividade, até de forma associativa, enfrentando os conflitos mediante o diálogo e acções não violentas (cf. GS, 68).

Neste contexto, o Concílio evoca um dos princípios fundamentais do magistério social, ou seja, o destino universal dos bens da terra (cf. GS, 69), e aplica-o no setor financeiro, afirmando que «todos os que decidem destes investimentos e da organização da vida económica – indivíduos, grupos ou poderes públicos – devem [...] vigiar para que sejam assegurados os requisitos necessários a uma vida digna dos indivíduos e de toda a comunidade; e, ainda, prever o futuro e garantir um equilíbrio saudável entre as necessidades do consumo hodierno, individual e colectivo, e as exigências de investimentos para a geração futura» (GS, 70).

Em seguida, a Gaudium et spes passa a abordar a comunidade política, valorizando vários sinais positivos na época contemporânea, sobretudo a constatação de que «a consciência mais sentida da dignidade humana dá origem, em diversas regiões do mundo, ao desejo de instaurar uma ordem político-jurídica em que os direitos da pessoa na vida pública sejam melhor assegurados» (GS, 73).

A comunidade política existe em função do bem comum, que consiste no «conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição» (GS, 74). E o exercício da autoridade política deve visar sempre o bem comum, estruturando-se e agindo de acordo com as circunstâncias locais e históricas, mas sempre tendo no coração o bem de toda a família humana (cf. ibid.).

A Gaudium et spes reitera que «no domínio próprio de cada uma, comunidade política e Igreja são independentes e autónomas. Mas, embora a títulos diversos, ambas servem a vocação pessoal e social dos mesmos homens. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para o bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação» (GS, 76).

Caríssimos, comprometer-se na economia e na política de acordo com estes critérios constitui uma maneira de construir a paz. Como recordava o Papa Francisco, «a guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal» (Carta enc. Fratelli tutti, 261). Pelo contrário, a política que cuida das feridas dos povos e de quantos sofrem injustiça oferece motivos de esperança para o porvir da humanidade.

Por isso, encorajo os jovens a seguir o exemplo daqueles homens e mulheres que, nestes âmbitos, deram bom testemunho. E renovo a minha exortação às comunidades cristãs a fim de que seja relançada a formação sobre a doutrina social da Igreja.


Fontes: Santa Sé; Notícias do Vaticano


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