O Papa partiu de Barcelona
com destino às Canárias
Esta manhã, bem cedo, o Papa Leão XIV seguiu para o aeroporto, onde recebeu a saudação de algumas autoridades locais e embarcou num Airbus A320 da companhia Iberia, que o conduziu à Base Aérea de Gran Canaria-Gando. Aí, como prevê a tradição, algumas autoridades locais estavam presentes para recebê-lo, seguido de um encontro na Sala VIP.
O primeiro compromisso do Papa nas Ilhas Canárias foi o encontro com as realidades de acolhimento aos migrantes no porto de Arguineguín, localizado na costa sul da ilha de Gran Canária. O local ainda é conhecido como o “Porto da Vergonha” porque, em 2020, pouco depois do início da emergência provocada pela Covid-19, cerca de 3 mil migrantes chegaram ali ao longo de apenas uma semana. Por causa da pandemia, porém, ninguém podia entrar no porto. Somente a Cáritas se organizou para prestar assistência aos náufragos, levando alimentos e materiais sanitários. Uma voluntária da instituição estará entre as pessoas que apresentarão seus testemunhos ao Pontífice durante o encontro.
No Encontro com Entidades de Acolhimento de Migrantes, no Porto de Arguineguín, uma das principais portas de entrada da rota migratória atlântica para a Europa, Leão XIV dirigiu um forte apelo em favor dos migrantes. O Papa denunciou a indiferença diante do sofrimento humano, pediu vias seguras de acolhida e integração e recordou que “o Sucessor de Pedro não pode ignorar esses desembarques”.
“O Sucessor de Pedro não pode ignorar esses desembarques. A Igreja não pode ignorar essas águas.”
Antes do discurso do Santo Padre, foram apresentados testemunhos que retratam diferentes rostos da migração. Entre eles, o do capitão Tito Villarmea, responsável por operações de salvamento marítimo; da voluntária da Cáritas María Reyes Alemán Cruz, que durante os momentos mais críticos da emergência migratória ajudou a coordenar o acolhimento de centenas de pessoas por dia; e de Blessing, uma mulher nigeriana vítima de tráfico para exploração sexual, cujo relato foi lido por razões de segurança.
Referindo-se às histórias apresentadas, o Papa observou que os discípulos de Jesus “não podem considerar o clamor daqueles que gritam na noite como algo desconhecido”.
Leão XIV também dedicou parte do seu discurso às vítimas do tráfico humano. Dirigindo-se particularmente a Blessing e às muitas mulheres exploradas por redes criminosas, o Santo Padre recordou que ninguém pode ser reduzido a mercadoria. “Ninguém pode comprá-la, vendê-la, usá-la ou descartá-la”, afirmou, porque cada pessoa traz em si a imagem e semelhança de Deus.
Referindo-se à Europa, advertiu que não é possível proclamar a defesa da dignidade humana e, ao mesmo tempo, acostumar-se a ver o Atlântico e o Mediterrâneo transformarem-se em “cemitérios sem lápides”.
Afinal, observou, se existe o direito de procurar refúgio quando a vida está ameaçada, existe também o direito de não ter que migrar: o direito de permanecer na própria terra “sem fome, sem guerra, sem perseguições, sem violência”.
“Não podemos acostumar-nos a contar os mortos. A dignidade humana não tem passaporte, nem perde valor ao cruzar uma fronteira.”
Como gesto final do encontro, Leão XIV prestou homenagem aos migrantes que perderam a vida na travessia rumo às Ilhas Canárias. Após o discurso, o Santo Padre desceu do palco e, à beira do cais, depositou flores no mar em memória daqueles que morreram tentando alcançar um futuro melhor.
O segundo compromisso do dia do Papa Leão foi o encontro com o clero diocesano, a vida consagrada e os agentes de pastoral na Catedral de Sant’Anna em Las Palmas na Gran Canária.
No seu discurso, usando metáforas marítimas, Leão XIV falou do privilégio de desfrutar todos os dias da "majestosa presença do mar", que pode, todavia, significar por vezes distância e separação. Para enfrentar as tempestades da existência, as turbulências e contradições desta época, é preciso levar Jesus em nossas barcas, disse o Santo Padre, confiando Nele para acalmar as ondas da incerteza e do medo.
"O primeiro 'guia de navegação', portanto, é abraçar a cruz de Cristo; e vocês o fazem diariamente quando, por exemplo, como cireneus, acompanham e ajudam a carregar os fardos de tantos irmãos e irmãs crucificados pelos dramas da vida. Agradeço-lhes por este generoso trabalho de caridade e misericórdia."
Já a segunda atitude - cultivar uma espiritualidade eucarística - está relacionada ao destino final da nossa peregrinação, que é o encontro com Cristo, centro da vida cristã, diante de quem nos ajoelhamos em adoração, em torno de quem nos reunimos formando um só corpo.
Uma forma concreta de manifestar esta espiritualidade de comunhão, ressaltou o Santo Padre, é a solidariedade cristã, encorajando a Igreja local a continuar a oferecer a todos o amor que recebemos do Senhor, "amor que se faz alimento no acolhimento, na escuta, na proximidade e no cuidado dos mais frágeis".
Esta noite o Papa Leão XIV presidiu à Eucaristia celebrada no Estádio de Gran Canária, em Las Palmas, convidando os cerca de 50 mil fiéis presentes a rezar juntos pelos irmãos e irmãs que perderam a vida no mar.
Na homilia da celebração, o Santo Padre ateve-se às leituras propostas pela liturgia, ressaltando que a nossa vocação ao amor tem as suas raízes na caridade de Deus, vocação que não se baseia no cálculo, nem no mero sentimento, nem se reduz a simples filantropia, mas penetra todo o nosso ser: fogo para a alma, luz para a mente, impulso irresistível para a liberdade, paz e, ao mesmo tempo, tormento para o coração, que bate em sintonia com outros corações, envolvendo toda a pessoa. Porque amar é conatural ao homem, ou melhor, é condição para a plenitude da própria existência.
Leão XIV frisou, contudo, que a nossa caridade não deve limitar-se a um mero assistencialismo, mas deve integrar as pessoas, para a sua plena realização — espiritual, intelectual e física — e a sua inserção digna e construtiva na comunidade. Só assim os nossos encontros, mesmo perante acontecimentos difíceis e dolorosos, se transformarão numa ocasião para semear a esperança no caminho da humanidade rumo a um futuro melhor.
Em seguida, o Papa deteve-se, à luz da Palavra de Deus pouco antes proclamada, numa última característica do Coração de Cristo: a humildade.
A propósito, citou Santo Agostinhos, que dizia: «onde está a caridade, aí está a paz, e onde está a humildade, aí está a caridade». É assim, continuou o Santo Padre, onde há verdadeira humildade, há amor, e onde há amor, há paz, porque só na humildade conhecemos realmente quem somos e, por isso, podemos amar-nos, encontrar-nos, entregar-nos e perdoar-nos na verdade.
Inflamados pela caridade do seu Coração, concluiu Leão XIV,
“Sejamos portadores da Sua misericórdia e da Sua paz, para que cessem as guerras no mundo e cresça à nossa volta uma nova humanidade, reconciliada no amor”.
Fontes: Santa Sé; Notícias do Vaticano


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