Paróquia de S. Cristóvão do Muro

Vigararia Trofa/Vila do Conde
Diocese do Porto - Portugal

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A MORTE É PARTE INTEGRANTE DA VIDA

 




É passagem para a eternidade

   


Dando continuidade ao ciclo de catequeses do Jubileu 2025, o Papa Leão XIV reflectiu sobre o tema “A Páscoa de Jesus Cristo: resposta última à pergunta sobre a nossa morte”, propondo um olhar cristão sobre a morte como parte do mistério da vida.

O Santo Padre reconheceu o impacto existencial desta realidade: “O mistério da morte sempre suscitou profundas interrogações no ser humano”. Segundo o Papa, a morte apresenta-se como um paradoxo:

É natural, porque na terra todos os seres vivos morrem. É inatural, porque o desejo de vida e de eternidade que sentimos por nós mesmos e pelas pessoas que amamos leva-nos a ver a morte como uma condenação, como um ‘contrassenso’.”

Ao analisar a sociedade contemporânea, o Pontífice alertou para a tendência de silenciar o tema: “Hoje […] a morte parece uma espécie de tabu, um acontecimento a manter distante”, o que leva muitos a evitarem até mesmo os cemitérios, onde repousam aqueles que aguardam a ressurreição.

A reflexão do Papa Leão XIV avançou para a condição singular do ser humano, único que tem consciência da própria finitude. “Só ao ser humano se coloca esta pergunta, porque somente ele sabe que deve morrer”, observou, acrescentando que esta lucidez não liberta, mas expõe a fragilidade: “Descobrimo-nos conscientes e, ao mesmo tempo, impotentes”.

Ao retomar o centro deste ciclo de catequeses, o Papa reforçou o aspecto do anúncio pascal: “O acontecimento da Ressurreição de Cristo revela-nos que a morte não se opõe à vida, mas é uma sua parte constitutiva, como passagem para a vida eterna”.



LEÃO XIV - AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro, Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2025

Ciclo de Catequese – Jubileu 2025. Jesus Cristo, Nossa Esperança.

IV. A Ressurreição de Cristo e os desafios do mundo de hoje.

7. A Páscoa de Jesus Cristo: a resposta definitiva à questão da nossa morte


Prezados irmãos e irmãs, bom dia! Sede todos bem-vindos!

O mistério da morte sempre suscitou profundas interrogações no ser humano. Com efeito, ela parece ser o acontecimento mais natural e, ao mesmo tempo, mais inatural que existe. É natural, porque na terra todos os seres vivos morrem. É inatural, porque o desejo de vida e de eternidade que sentimos por nós mesmos e pelas pessoas que amamos leva-nos a ver a morte como uma condenação, como um “contrassenso”.

Muitos povos antigos desenvolveram ritos e costumes ligados ao culto dos mortos, para acompanhar e recordar quantos se encaminhavam rumo ao mistério supremo. No entanto, hoje verifica-se uma tendência diferente. A morte parece uma espécie de tabu, um acontecimento a manter distante; algo de que falar em voz baixa, para evitar perturbar a nossa sensibilidade e tranquilidade. Por isso, muitas vezes até se evita visitar os cemitérios, onde quem nos precedeu repousa à espera da ressurreição.

Portanto, o que é a morte? É realmente a última palavra sobre a nossa vida? Só ao ser humano se coloca esta pergunta, porque somente ele sabe que deve morrer. Mas estar ciente disto não o salva da morte; aliás, num certo sentido, isto “sobrecarrega-o” em relação a todas as outras criaturas vivas. Os animais sofrem, certamente, e dão-se conta de que a morte está próxima, mas não sabem que a morte faz parte do seu destino. Não se interrogam sobre o sentido, o fim, o êxito da vida.

Constatando este aspecto, então deveríamos pensar que somos criaturas paradoxais, infelizes, não só porque morremos, mas também porque temos a certeza de que este acontecimento ocorrerá, embora ignoremos como e quando. Descobrimo-nos conscientes e, ao mesmo tempo, impotentes. Provavelmente é daqui que provêm as frequentes remoções, as fugas existenciais perante a questão da morte.

No seu famoso escrito intitulado Preparação para a morte, Santo Afonso Maria de Ligório reflecte sobre o valor pedagógico da morte, evidenciando como ela é uma grande mestra de vida. Saber que existe e, sobretudo, meditar sobre ela ensina-nos a escolher o que realmente fazer da nossa existência. Rezar, para compreender o que é benéfico em vista do reino dos céus, e abandonar o supérfluo que, ao contrário, nos liga às realidades efémeras, é o segredo para viver de modo autêntico, na consciência de que a passagem pela terra nos prepara para a eternidade.

No entanto, muitas visões antropológicas actuais prometem imortalidades imanentes, teorizam o prolongamento da vida terrena mediante a tecnologia. É o cenário do transumano, que se abre caminho no horizonte dos desafios do nosso tempo. A morte poderia ser verdadeiramente derrotada com a ciência? Contudo, a própria ciência poderia garantir-nos que uma vida sem a morte também é uma vida feliz?

O acontecimento da Ressurreição de Cristo revela-nos que a morte não se opõe à vida, mas é uma sua parte constitutiva, como passagem para a vida eterna. A Páscoa de Jesus faz-nos saborear antecipadamente, neste tempo ainda cheio de sofrimentos e provações, a plenitude do que acontecerá após a morte.

O evangelista Lucas parece captar este presságio de luz na escuridão quando, no final daquela tarde em que as trevas envolveram o Calvário, escreve: «Era o dia da Parasceve e já resplandeciam as luzes do sábado» (Lc 23, 54). Esta luz, que antecipa a manhã da Páscoa, já brilha na escuridão do céu que ainda parece fechado e emudecido. Pela primeira e única vez, as luzes do sábado anunciam antecipadamente a aurora do dia depois do sábado: a nova luz da Ressurreição! Só este acontecimento é capaz de iluminar profundamente o mistério da morte. Nesta luz, e só nela, torna-se verdadeiro o que o nosso coração deseja e espera: ou seja, que a morte não é o fim, mas a passagem para a luz plena, para uma eternidade feliz.

O Ressuscitado precedeu-nos na grande prova da morte, saindo vitorioso graças ao poder do Amor divino. Assim, preparou-nos o lugar do descanso eterno, a casa onde somos esperados; ofereceu-nos a plenitude da vida, onde não há mais sombras nem contradições.

Graças a Ele, morto e ressuscitado por amor, com São Francisco podemos chamar à morte “irmã”. Aguardá-la com a esperança certa da Ressurreição preserva-nos do medo de desaparecer para sempre e prepara-nos para a alegria da vida sem fim!




Fontes: Santa Sé; Notícias do Vaticano


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