O segundo dia
em Angola
O domingo do Papa Leão XIV em Angola foi dedicado inteiramente à comunidade católica. Na esplanada de Kilamba, periferia de Luanda, presidiu à Santa Missa recordando a guerra civil e pedindo que antigas divisões sejam superadas, assim como o ódio, a violência e corrupção:
"Só assim será possível um futuro de esperança, sobretudo para os muitos jovens que a perderam. Irmãos e irmãs, hoje é necessário olhar para o futuro com esperança e construir a esperança do futuro".
Toda a cerimónia foi em português, inclusive a homilia pronunciada pelo Santo Padre, que logo no início agradeceu pelo caloroso acolhimento. A reflexão foi inspirada pelo Evangelho deste Terceiro Domingo da Páscoa, em que o Senhor nos fala através do episódio dos discípulos de Emaús. Uma narração, afirmou o Papa, na qual se reflecte a história de Angola:
"Ao longo do caminho, a conversa dos dois discípulos, que recordam com desânimo o que aconteceu ao seu Mestre, traz à memória a dor que marcou o vosso país: uma longa guerra civil com o seu rasto de inimizades e divisões, de recursos desperdiçados e de pobreza".
Quanto aos problemas sociais e económicos e as diversas formas de pobreza que existem em Angola, Leão XIV pediu uma Igreja que saiba estar próxima no caminho e saiba ouvir o clamor dos seus filhos.
"Uma Igreja que, com a luz da Palavra e o alimento da Eucaristia, saiba reavivar a esperança perdida. Uma Igreja feita de pessoas como vós, que se doam tal como Jesus parte o pão para os dois discípulos de Emaús”.
No final da celebração eucarística, o Papa Leão XIV rezou com os fiéis a tradicional oração do Regina Caeli.
“Queridos irmãos e irmãs, unamo-nos agora em oração a Maria Regina Caeli, Rainha do Céu, para partilhar com Ela, nossa Mãe e companheira de caminho, a alegria da Ressurreição.”
Expressando-se em português, o Papa sublinhou que a alegria pascal não ignora o sofrimento humano, mas assume-o e transforma-o à luz da fé, e voltou o seu olhar atento aos actuais cenários de guerra no mundo:
“Lamento profundamente a recente intensificação dos ataques contra a Ucrânia, que continuam a atingir também a população civil. Manifesto a minha proximidade a quantos sofrem e asseguro as minhas orações por todo o povo ucraniano. Reitero o apelo para que as armas se calem e se siga o caminho do diálogo.”
Também se referiu aos sinais de esperança no Médio Oriente e encorajou as tentativas de paz por meio do diálogo.
“Por outro lado, a trégua anunciada no Líbano é motivo de esperança, representando um sinal de alívio para o povo libanês e para o Levante. Encorajo aqueles que se têm empenhado na busca de uma solução diplomática a prosseguir os diálogos de paz, para que o fim das hostilidades em todo o Médio Oriente se torne permanente.”
Concluindo, o Santo Padre retomou o anúncio pascal, recordando aos mais de 100 mil fiéis presentes que a vitória de Cristo sobre a morte é o fundamento da acção cristã no mundo:
“Cristo venceu a morte, e é com esta certeza que todos nós, unidos a Ele e n’Ele, como um só corpo, nos esforçamos hoje e a cada dia por fazer crescer à nossa volta os frutos da Páscoa, que são o amor, a verdadeira justiça e a paz, para além de todos os obstáculos e dificuldades.”
Na tarde deste Domingo, o Papa deixou Luanda de helicóptero, percorrendo cerca de 110 quilómetros, em direcção a Muxima. Neste município encontra-se o Santuário de Mamã Muxima (“Mãe do Coração” em kimbundu, uma das línguas mais faladas no norte de Angola), construído no século XVII pelos portugueses, numa elevação com vista para o rio Kwanza, o maior rio angolano. Por quase 300 anos, este local foi um ponto de encontro para os escravos que eram conduzidos para a costa, para iniciar sua viagem sem volta ao continente americano. O Santuário tem uma arquitectura simples, no estilo português; foi incendiado pelos colonos holandeses em 1641, para depois ser reconstruído e restaurado. Ali é venerada uma imagem muito antiga da Imaculada Conceição, à qual os fiéis reservam grande devoção.
Aí, o Santo Padre rezou o Terço com milhares de fiéis. Após a recitação dos Mistérios Gloriosos, Leão XIV tomou a palavra para expressar a sua alegria em partilhar com eles a "frescura da fé e a força do Espírito".
“Encontramo-nos num Santuário onde, durante séculos, tantos homens e mulheres rezaram, quer em momentos de alegria, quer em circunstâncias tristes e muito dolorosas da história deste país. Aqui, há muito tempo, Mama Muxima empenha-se de forma discreta a manter vivo e pulsante o coração da Igreja, um coração feito de corações: os vossos e os de tantas pessoas que amam, rezam, festejam. (...) Mama Muxima acolhe todos, escuta todos e reza por todos.”
Este Santuário, dedicado à Imaculada Conceição, foi espontaneamente “rebaptizado” pelos fiéis como Santuário da “Mãe do coração”. "É um título belíssimo", disse o Santo Padre, que nos faz pensar no Coração de Maria: um coração límpido e sábio. Assim, rezar o Terço "compromete-nos a amar cada pessoa com coração maternal, de forma concreta e generosa, e a dedicar-nos ao bem uns dos outros, especialmente dos mais pobres".
Que a ninguém falte o amor e, com ele, o necessário para viver com dignidade e ser feliz, prosseguiu o Santo Padre: para que quem tem fome tenha com que se alimentar, para que todos os doentes possam receber os cuidados necessários, para que às crianças seja garantida uma adequada instrução, para que os idosos vivam serenamente os anos da sua maturidade.
“É o amor que deve triunfar, não a guerra! É isso que nos ensina o coração de Maria, o coração da Mãe de todos. Partamos, pois, deste Santuário como “anjos-mensageiros” de vida, para levar a todos a carícia de Maria e a bênção de Deus.”
Fontes: Santa Sé; Notícias do Vaticano

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